A dor é considerada o 4º sinal vital em medicina veterinária. Estudos demonstram que veterinários subestimam a dor em seus pacientes em até 50% dos casos. O uso de escalas de dor validadas melhora significativamente o reconhecimento e o tratamento adequado da dor, impactando diretamente na recuperação e no bem-estar animal.
Os sinais de dor em cães podem ser sutis e variam com a intensidade e cronicidade:
- Comportamentais: Vocalização, agitação, relutância em se mover, alteração na postura, lamber a área dolorosa
- Faciais: Tensão muscular orbital, orelhas abaixadas, olhar fixo ou evitando contato
- Fisiológicos: Taquicardia, taquipneia, hipertensão, midriase, cortisol elevado
- Funcionais: Redução da atividade, anorexia, alteração do sono
Gatos são notoriamente difíceis de avaliar para dor. Frequentemente escondem sinais:
- Diminuição da atividade: Imobilidade, relutância em pular, isolar-se
- Expressão facial: A Feline Grimace Scale (FGS) avalia 5 unidades de ação facial: posição das orelhas, tensão orbital, tensão do focinho, posição dos bigodes e posição da cabeça
- Alterações de comportamento: Agressão incaracterística, redução de grooming ou grooming excessivo
- Ronronar: Pode indicar conforto OU dor (mecanismo de autocalmante)
| Escala | Espécie | Tipo de Dor | Pontuação | Limiar Analgésico |
|---|---|---|---|---|
| Glasgow CMPS-SF | Cães | Aguda | 0-24 | ≥6/24 |
| Colorado CSU | Cães/Gatos | Aguda | 0-4 | ≥2/4 |
| FMPI-SF (Helsinki) | Gatos | Aguda | 0-24 | ≥8/24 |
| Feline Grimace Scale | Gatos | Aguda | 0-10 | ≥4/10 |
| CBPI (Canine BPI) | Cães | Crônica | 0-10 (cada item) | Resposta ao tratamento |
Atenção: A ausência de sinais óbvios de dor NÃO significa ausência de dor. Gatos e animais selvagens frequentemente mascaram sinais de dor como mecanismo de sobrevivência. Sempre presuma dor em pacientes pós-cirúrgicos, com fraturas, inflamação ou condições sabidamente dolorosas, mesmo se não demonstrarem sinais clássicos.
A escala de Glasgow (Glasgow Composite Measure Pain Scale — Short Form) é uma das mais utilizadas mundialmente. Avalia 6 categorias comportamentais e 1 de palpação da ferida:
- Vocalização (0-3)
- Atenção à ferida (0-3)
- Mobilidade (0-3)
- Resposta ao toque (0-5)
- Comportamento geral (0-4)
- Postura (0-3)
- Palpação da ferida (0-3)
Pontuação total de 0-24. Intervenção analgésica recomendada quando ≥6/24.
- Dor leve (escore baixo): AINE isolado ou paracetamol (apenas cães)
- Dor moderada: AINE + opioide (tramadol ou buprenorfina) ± gabapentina
- Dor intensa: Opioide potente (metadona, fentanil CRI) + AINE + gabapentina ± cetamina CRI
- Dor crônica: AINE de longo prazo + gabapentina + amantadina + reabilitação física
- Pós-operatório imediato: a cada 1-2 horas nas primeiras 6 horas
- Pacientes internados: a cada 4-6 horas
- 30-60 minutos após administração de analgésico (para avaliar eficácia)
- Sempre que houver mudança no quadro clínico
Utilize a Pain Assessment Tool para aplicar escalas de dor validadas de forma padronizada e documentar os escores ao longo do tempo. O Pharmacology Specialist pode auxiliar na escolha do protocolo analgésico multimodal mais adequado para cada escore de dor.
- Use escalas validadas — Glasgow CMPS-SF para cães, Feline Grimace Scale para gatos.
- Ausência de sinais ≠ ausência de dor — presuma dor em condições sabidamente dolorosas.
- Analgésia multimodal — combine mecanismos de ação diferentes para melhor controle.
- Reavalie após tratar — 30-60 minutos após analgésico para confirmar eficácia.